Propostas de "acolhimento" das minorias promovem desmantelamento da ordem social
Na sua obra máxima, Ayn Rand propôs a Revolta de Atlas. No livro, os indivíduos mais brilhantes e capazes da sociedade retiravam-se dos países socialistas para privá-los do seu talento, pois deram-se conta de que tais regimes apenas subsistiam ao alimentar-se deles. No Brasil de hoje, porém, é possível perceber um outro tipo de fenômeno: "A Revolta de Ephialtes".
Segundo a História, o exército espartano resistia bravamente à invasão dos persas nas Termópilas. Apesar de estarem em grande desvantagem numérica, os espartanos formaram uma poderosa resistência, pelo fato de serem os mais formidáveis guerreiros da antiguidade. Todavia, o exército grego acabou manifestando uma desvantagem: devido aos altos padrões exigidos para um guerreiro ingressar no exército espartano, Ephialtes, basicamente um deficiente físico, havia sido rejeitado pelo general Leônidas, porque não conseguia erguer o escudo de modo a compor a poderosa falange grega. Coxo de uma perna e com uma corcunda nas costas, Ephialtes era o avesso do que deveria ser um soldado grego. Mas tomado pelo orgulho de tornar-se um grande guerreiro, ele rejeita desempenhar os papéis menores oferecidos por Leônidas, de ajudar os feridos no combate, e decide vingar-se. O desapontando guerreiro revela a Xerxes, o rei persa, uma passagem secreta pelo desfiladeiro, que permite aos persas atacá-los pela retaguarda e derrotá-los facilmente.
Toda sociedade possui seus Ephialtes, seres que, por algum motivo e independentemente de culpa, não se encaixam nos padrões da sociedade, tal como ela foi desenhada. No Brasil de hoje, podemos pensar em vários grupos sociais e minorias que ocuparam esse lugar. Inicialmente, os gays, negros, e mulheres, mas também os camelôs, os imigrantes, os banidos da ditadura, toda sorte de ilegalidades. Enfim, qualquer grupo de pessoas para o qual as classes altas desviam o seu olhar; toda feiura e deformidade olhada de cima pelo poder público apenas como um "país que não deu certo". De certa forma, essa atitude desperta sempre algum nível de crítica da classe artística em algumas canções, como a de Adriana Calcanhotto, em Bom Gosto.
Mas apesar de ser possível conceber papéis que possam ser desempenhados por eles em sua simplicidade, há sempre a possibilidade de neles encontrar a resistência e pretensão de alcançar uma glória para a qual não foram destinados. Eles despertam nossa simpatia pelo seu sofrimento não merecido; nossa piedade pelas doçuras da vida de que não poderão usufruir; nossa esperança romântica e simplória de que eles possam um dia alcançar aquilo que almejam, se forem bons o bastante. Disfarçamos para nós que ali não habita nada de uma vaidade secreta de quem não aceitará mais qualquer papel coadjuvante na história, mas somente o de protagonista...
Até certo ponto, a existência de tais grupos pode ser considerada um subproduto natural e involuntário dos sistemas sociais e econômicos vigentes; simplesmente porque nenhum serviço público conseguiria incluir a todos. São aqueles a quem a sociedade não consegue abraçar, não por que não queira, mas porque seus braços não são grandes o bastante. Esse desafio é ainda maior em um país como o Brasil que, além da extensão territorial, possui um legado histórico complexo e pesaroso, com uma ampla diversidade cultural para dar conta. Para uma certa parcela da população, esses braços "deveriam" ser grandes o bastante, surgindo assim as temerárias comparações entre o Brasil e estados europeus muito menores e diferentes de nós. De acordo com o filósofo Luís Felipe Pondé, esse é o pensamento que, em resumo dita que "o mundo todo bem que poderia ser como a Dinamarca...".
Pondé: para a Europa moderna, o Estado deveria acolher a todos.
Isso, enfim, foi tentado com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores. Com a ascensão do PT, o partido se aproximou dessas classes para lhes oferecer algo que até então não possuíam: uma narrativa. Mas não qualquer narrativa, e sim aquela que eles desejavam; uma que os colocava, aparentemente, no centro do mundo; um mundo que, até então, somente haviam habitado perifericamente, vagado por suas sombras, na pele das prostitutas nos arredores das cidades, dos gays expulsos de casa, dos pobres, famintos e miseráveis. O PT acolheu esses mal-amados da história e, sob a sua orientação, lhes foi contada uma história diferente daquela dos "braços curtos do estado". Segundo a nova ótica, seu baixo status era o produto intencional e planejado das classes superiores, que os odeiam. Com as sofisticadas técnicas discursivas e ideológicas do gramscismo, o PT insuflou seu ressentimento contra o restante da ordem social; aprenderam o quanto foram propositalmente negligenciados; como "O Sistema" foi criado para excluí-los, como a mais-valia roubou-lhes os salários, como o patriarcado usurpou sua posição, como uma cultura arbitrária lhes impôs padrões rígidos e limitados de comportamento sexual. Assim foi criada a percepção de uma realidade alternativa, uma realidade das coisas como poderiam (ou até deveriam) ter sido; uma realidade ainda por ser fabricada.
No afã de conseguir um apoio político sólido e apaixonado, nossos socialistas tupiniquins lograram reunir aos poucos toda sorte de deformados, dando voz e projeção a suas queixas, adulando seus caprichos, inflando seus egos com lisonjas; de modo que o tempo os fez acreditar serem mais importantes, poderosos e indispensáveis do que realmente são. E, de fato, o seu volume e barulho quase os fez assim. O PT acalantou seus delírios de grandeza e os transformou em alguém.
Nesse processo, esses grupos aprenderam a se organizar e formaram bancadas no congresso. Na sua mentalidade e no discurso dos partidos, suas causas tinham a finalidade mais nobre de todas. Seriam eles os heróis que iriam corrigir as injustiças do mundo, trazendo de volta o equilíbrio, rompido à força, pelos seus antípodas (os ricos, brancos, héteros, bem formados e bem nascidos) devolvendo assim a paz à sociedade. Foi aí então que começou o show de horrores...
Com ascensão dos "minoritários", acabou ocorrendo uma exposição do seu modo também deformado de pensar e ver o mundo, deixando à mostra as barbaridades dos seus gostos e preferências, bem como de suas diferentes concepções da sociedade. E esta, foi surpreendida de repente por uma uma enxurrada de beijos gays na televisão, crianças tocando homens nus em museus, a escatologia humana agora promovida ao sublime status de protesto; exposições de nudez, nudez e mais nudez, etc.
Se por um lado todos podemos concordar em dar assistência individualizada a algumas minorias, atendendo demandas ambientais, instalando rampas para deficientes nos prédios, ou mesmo outras demandas mais dispendiosas mas perfeitamente compatíveis com os valores gerais, o que fazer quando essa assistência especial começa a ameaçar outras prioridades? Por exemplo, o que fazer quando a lei de cotas fere os princípios de meritocracia? Quando o que antes era apenas assassinato, agora pode ser feminicídio (L3104/15), LGBTcídio (PL 7292/17) e o que mais possa vir depois? E quando se deseja que os homossexuais possam doar sangue após terem tido relações no intervalo de 12 meses, sabendo que isso atropela constatações científicas da Organização Mundial da Saúde, que constatam nisso um maior risco de contaminação pelo HIV (PDC 422/2016)? E quando se deseja que o SUS ofereça cirurgias para mudanças de sexo e tratamentos hormonais para transexuais, quando faltam recursos para pacientes com câncer (PL 5002/2013)? E quando é preciso uma lei específica para que as igrejas possam se recusar a realizar casamentos entre homossexuais (PL 1411/11) garantindo sua liberdade de consciência e de crença? Legalização do aborto e da maconha são outras preocupações que têm assombrado os brasileiros nos últimos tempos. E mesmo a pedofilia começa aos poucos a enviar seus acenos, nos recônditos desse mundo flexibilizado...
É importante entender que ninguém é contra a conquista de direitos pelas minorias. São relevantes as conquistas sociais do casamento homossexual, a lei Maria da Penha (as mulheres não são uma minoria propriamente dita, mas faltavam adaptações para melhor acolher suas problemáticas) dentre várias outras. Todavia, muitos projetos têm horrorizado a população por seu caráter autoritário, antidemocrático, ameaçador de liberdades privadas ou por sua falta de bom senso para com outras prioridades.
Essa é a Revolta de Ephialtes, o esforço de engenharia social para materializar um mundo, tal como ele seria se construído pelos defeituosos da sociedade. Distorcido na estética, na ética, nas instituições sociais... mas perfeito para eles. E se o partido que se propõe a torná-lo realidade é não apenas corrupto, mas também terrorista e totalitário, eles mesmo assim o apoiarão, pois estão dispostos a arrasar todo o resto para concretizar sua utopia.
Impasse com a militância petista foi superado pelas técnicas de negociação
Desde a sexta-feira, o país acompanhou ansioso o cumprimento do mandado de prisão do ex-presidente Lula pela Polícia Federal. Causaram aflição, e certamente indignação, as manobras utilizadas por ele para resistir à justiça. Ao invés de voar direto para Curitiba e atender aos termos propostos pelo juiz Sérgio Moro, Lula seguiu para a sede do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, onde rapidamente avolumou-se o número de partidários, prontos para dificultar a ação de qualquer um que aparecesse para tentar prendê-lo.
Criou-se (ou melhor, o Lula criou) uma situação delicada: uma vez instalado ali, não haveria modo de a polícia entrar e, na verdade, nem como ele próprio sair de livre e espontânea vontade para cumprir a ordem judicial sem o uso da força. Qualquer tentativa de invasão, certamente resultaria em caos. O que fazer? Comentarias falavam no uso de gás lacrimogêneo, sprays de pimenta, balas de borracha, jatos d'água, etc, enquanto dentro do seu bunker Lula era dissuadido por seus advogados do que certamente deve ter sido a sua (tola) ideia inicial de resistir à prisão. O relógio corria até expirar o prazo para sua apresentação voluntária.
Logo, jornalistas e espectadores país afora apressaram-se em criticar o trabalho da Polícia Federal. "Onde já se viu, um criminoso já condenado escolher a hora da sua prisão? Que país sem autoridade! Incompetência!". Lula ridicularizava as instituições do país e punha em risco a segurança dos seus próprios seguidores. A negociação entre sua defesa e a polícia lhe deu ainda a regalia de participar de uma missa no dia seguinte, e ainda de discursar para seus sectários. Acusou-se novamente a polícia de desorganização, amadorismo, de falta de planejamento, etc. Mas será que foi isso mesmo?
Analisando o cenário em que o petista se meteu, percebemos que a saída iria requerer o uso de um pouco de psicologia. E à medida que os acontecimentos se desenvolviam, lembrei de uma teoria chamada As 5 fases do Luto, da psiquiatra americana Elisabeth Kubler-Ross. Seu modelo foi elaborado a partir da identificação das reações psíquicas básicas de pacientes em estado terminal. O luto, nesse caso, não se dá apenas em relação a morte, mas é visto como um processo necessário e fundamental para preencher o vazio deixado por qualquer perda significativa: viagem, emprego, ideias, objetos, etc.
As cinco fases são: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Para um entendimento divertido, acompanhe o vídeo abaixo:
Pode-se facilmente identificar essas 5 fases nos militantes do PT ao longo de todo o processo de prisão do Lula, desde o momento em que o mandado de prisão de Lula foi expedido por Moro. A Negação, para não dizer incredulidade, acompanhou todas as etapas do julgamento de Lula: sua "militância", além dele mesmo, sempre duvidou de que ele pudesse ser julgado, de que seus recursos pudessem ser recusados, e duvidavam também que pudesse ser preso. No entanto, essa realidade chegou.
Ao ser expedida a ordem de prisão, seguidores anunciaram à imprensa que não iriam "esperar passivamente". Surgiram ameaças de que se formaria um "cordão humano" em volta do sindicato, de que se promoveria uma guerra, de que seria acionado o chamado "exército de Stéllide"... mas além do exagero óbvio, as bravatas revelavam mais um estágio se aproximando: era a Raiva, que agora ocupava o lugar da Negação.
A seguir, repórteres noticiaram que os advogados de Lula estavam negociando com a Polícia Federal os termos de sua rendição. Ficou combinado que ele se entregaria no dia seguinte, após uma missa em homenagem a sua esposa e a realização de um discurso. Depois disso, Lula seria levado até o aeroporto, dentro de uma viatura descaracterizada. Era a fase da Barganha entrando em cena.
Aparentemente não houve um estágio de Depressão ali, mas a fase final, da Aceitação, era fundamental. Somente após essa fase os militantes poderiam abandonar seu comportamento de resistência e permitir a atuação da Polícia Federal. Para isso, o discurso de Lula, muito criticado por alguns, desempenhou um papel importante. Apesar de toda a costumeira demagogia política - fez-se uma patética tentativa de imitação do discurso de Martin Luther King, e uma evocação canastrona ao filme V, de Vingança, mas deixemos isso de lado -, seu discurso assumiu ares de conformação e despedida. O tom era nostálgico, com referências a sua longínqua trajetória como líder sindicalista. Predominaram verbos conjugados no passado e, por fim, veio o anúncio de que se entregaria. Mas sua prisão não foi anunciada como uma derrota ou confissão de culpa, ao contrário. Nas suas palavras, seria um modo de mostrar que não tinha medo; de evitar fugir e esconder-se;de "enfrentá-los" e de lutar pela "democracia".
Com essas palavras, veio a ressignificação que faltava. Trata-se de um processo da neurolinguística, que permite às pessoas atribuírem novos significados a acontecimentos, mudando sua percepção de mundo. A temida prisão, que há pouco significava a morte no inconsciente coletivo dos militantes presentes, agora significava a vida, a continuidade e a luta. Não se tratava mais de medo, mas de coragem. O Lula não iria desaparecer pois, no seu lugar, surgiriam milhares de Lulas, na forma dos seus seguidores. A Aceitação pôde, por fim, encontrar seu espaço.
O elemento-chave era o tempo, pois era preciso aguardar que as mensagens surtissem seu efeito. Ao término do discurso, Lula se recolheu ao prédio do sindicato, e ali ele aguardou. A multidão devia fazer o seu papel e se dispersar. Por isso, mesmo o prazo de 24 horas dado por Moro, que muitos julgaram ser uma regalia que dava ao Lula o "controle da situação", foi crucial para deixar agir o efeito dramático. Tanto é assim que, momentos depois do discurso, grande parte da multidão realmente se afastou. A necessidade de expressar a insatisfação fora satisfeita. E embora ainda tenham restado manifestantes, os últimos fanáticos do culto a Lula ansiosos para auto imolar-se no altar do seu ídolo, sua saída foi imensamente facilitada por todo o trabalho previamente aplicado.
Posso estar enganado, mas acredito que tenha havido o dedo de psicólogos ou dos negociadores da Polícia Federal nesse discurso, e somente o Lula poderia fazê-lo. Portanto, onde alguns viram negligência ou falta de planejamento, eu percebo uma grande e importante elaboração. Graças a ela, a justiça hoje pôde ser cumprida sem que as centenas de pessoas que foram lá para se machucar, tivessem que realmente ser machucadas pra isso. É um importante feito para o nosso país, ainda tão desacostumado a ver o cumprimento da justiça, porém tão acostumado a assistir cenas de violência. Que este possa ser o início de um novo caminho para nós, nesses tempos dolorosos, mas que, com o despontar de cada vitória, enfim atravessamos.
Vivemos um momento político de apocalipses cíclicos: a cada 3, 4 meses um nova catástrofe surge para nos assombrar. Começou com o impeachment, em setembro. Desde então, e em clima de temor e luto, diferentes grupos conquistaram espaço na mídia para veicular suas mensagens contra o impeachment, sempre transmitindo uma expectativa de desolação caso este fosse aprovado. Porém o impeachment passou, e... nada sucedeu! Ora, erro nos cálculos? Não. O fim do mundo fora adiado, e... Só. Bem, que decepção...
Mas, como diria o guaxinim Rocket, em Guardiões da Galáxia, "life never disapoints me...", e este ainda não era o fim, ou pelo menos, não era o fim do fim do mundo. Pois logo em seguida, veio a votação da PEC 241. Os nossos infalíveis heróis, castrofistas de plantão, desamparados por esse incógnito mundo pós-impeachment (com o qual eles não contavam e que ainda apenas começavam a compreender) tiveram então seu ânimo renovado. Vieram as paralisações (protestar em feriado não tem graça), abaixo-assinados, correntes de email e whatsapp, ocupações de escolas, passeatas e, claro, o mesmo espírito de "fim do mundo", já havíamos nos familiarizado. Eu não estaria errado em suspeitar que a frustração dos contra-impeachment encontrou ali o seu melhor esforço compensatório. Quanta emoção! Uma nova motivação brilhava no horizonte.Pois dessa vez, caso o projeto fosse aprovado, o mundo acabaria, com certeza! Os órfãos do fim do mundo estavam, enfim, a salvo.
Então o mundo deve ter acabado novamente porque a PEC 241 foi aprovada (com boa folga). E ora, vejam só, o mundo nem acabou. Afinal de contas, é um mundo bem teimoso. Não obstante as listas de X motivos porque a instituição (cooptada) Y era contra a PEC, prevendo dentre os colapsos básicos, o desmonte da educação pública, retrocesso de direitos, precarização dos serviços, etc. E, claro, sempre presente esse sentimento, não muito bem definido, de ameaça que paira no ar, como se o mundo estivesse prestes a sofrer uma inversão da ordem natural e sagrada das coisas. Mas, agora, silêncio. A tal da PEC jaz esquecida e abandonada. A última menção que vi na internet foi de dezembro de 2016.
Cruzamos agora um novo ciclo. Com a aprovação da lei da Terceiricação, renovaram-se as passeatas, paralisações, correntes, etc, etc, etc, mas, mais uma vez o apocalipse final aparenta se aproximar (frustrando assim a Camila Pitanga). Mas ele continuará vindo, como bem sabe todo fã de filmes de super-heróis. Os "vilões" continuarão chegando, ciclicamente, à medida que os anteriores forem derrotados, cada vez mais fortes, com novos poderes ou uma nova arma mirabolante. Estão ainda por vir a votação da reforma da previdência, a reforma política, as infinitas fases da operação Lava Jato (Guerra Infinita). Sem elas, como os nossos heróis, já não tão infalíveis..., os nossos falíveis heróis, poderiam manifestar seus portentosos feitos? Ora, o que seria da Camila Pitanga e seus vídeos no youtube? O que seria deles sem a sua capacidade de manter as pessoas nesse eterno clima de suspense, inculcado e sedimentado no coletivo, do qual esperam tanto colher frutos no futuro? Estes são quadrinhos orwellianos...
Nessas horas amargas, sinto-me verdadeiramente um sobrevivente, nessa sempre inovadora saga, cujo roteiro deve desafiar até o melhor roteirista de histórias em quadrinhos. Mas os quadrinistas não me previram também: portador de alguma bênção outrora reservada somente aos heróis gregos, protegidos pelos deuses; um sobrevivente incólume de todos esses pavorosos acidentes cataclísmicos (como adoro essas palavras). Eu devo ser Thanos!
O trabalho sugere que crianças que são punidas com palmadas por seus pais podem crescer mais felizes e bem sucedidas do que aquelas que são poupadas dos castigos físicos.
Um estudo descobriu que crianças recebem palmadas acima dos seis anos de idade saem-se melhor na escola e são mais otimistas sobre a vida do que as que não recebem. Elas também demonstraram maior inclinação para realizar trabalhos voluntários ou entrar na universidade.
A pesquisa, conduzida nos Estados Unidos, deve irritar militantes dos direitos infantis, que têm tentado, sem sucesso, banir as palmadas da Grã-Bretanha. Atualmente, os pais são autorizados por lei a ministrar "castigos razoáveis", como palmadas que não deixem marcas ou hematomas. Mas defensores dos direitos das crianças argumentam que essa é uma forma ultrapassada de punição, que pode causar problemas de saúde mental a longo prazo.
Os pesquisadores entrevistaram 179 adolescentes a respeito da frequência com que recebiam palmadas na infância, e que idade tinham quando as receberam pela última vez. Os dados foram cruzados então com a informação dada por eles sobre que comportamentos poderiam ter sido influenciados pelas palmadas, inclusive eventuais efeitos negativos, tais como comportamento antissocial, atividade sexual precoce, violência e depressão, e positivos, como sucesso acadêmico e autorrealização.
Aqueles que haviam recebido as palmadas acima dos seis anos se saíram melhor em quase todos os pontos positivos e não apresentaram nenhum ponto negativo, em contradição com aqueles que nunca haviam sido punidos fisicamente. Os que afirmaram terem sido castigados na faixa etária dos 7 aos 11 anos também demonstraram ser mais bem sucedidos na escola do que os não castigados, mas saíram-se pior em alguns pontos negativos, tais como mais envolvimento em brigas.
No entanto, jovens que afirmaram continuar recebendo castigos corporais pontuaram pior do que todos os outros grupos em todas as categorias. A pesquisa apontou pouca diferença entre os sexos e grupos raciais. Os estudos foram rejeitados pela Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade com as Crianças, que tem lutado para banir as palmadas, apontando para os efeitos danosos dessa prática.
Para o grupo Parents Outloud a pesquisa é bem-vinda e alegam que os pais não devem ser criminalizados por dar palmadas leves. Sua porta-voz, Margaret Morrissey, disse: "é muito difícil explicar verbalmente a uma criança o por que de alguma coisa ser errada. Um tapa leve é frequentemente a forma mais eficaz de ensiná-los a não fazer algo que é perigoso ou doloroso para outras pessoas - é uma medida preventiva. Ao passo que qualquer coisa maior que um tapinha leve é definitivamente errado, aos pais deve ser permitida a liberdade de disciplinar seus filhos sem o medo de serem denunciados à polícia".
Nossa necessidade diária de estar atualizado pelas últimas notícias é que, juntamente com elas, absorvemos também certos padrões de pensamento que passam despercebidos. Para fazer valer suas asserções e manter o leitor sempre interessado, os jornais utilizam estratégias sutis e manipulativas que podem até mesmo distorcer os fatos e comprometer nossa capacidade de avaliar a realidade. Parece exagero? Não é.
Um exemplo mais recente é o modo como é apresentada a imagem do presidente Michel Temer na maioria dos jornais: um ar sonolento e dúbio, que chega a aparentar não estar bem de saúde. Da mesma forma acontece com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, sempre selecionado nas piores poses possíveis.
Mas o mais danoso para os consumidores da notícia é, sem sombra de dúvida, o mau raciocínio empregado na elaboração do seu conteúdo. Os terapeutas comportamentais apresentam algumas classes de pensamento distorcido, e estas podem ser facilmente identificados nas notícias nacionais e internacionais em função do partidarismo dos nossos veículos de comunicação. Vejamos os mais danosos deles:
1. Catastrofismo
O catastrofismo é um padrão de pensamento distorcido que consiste em fazer com que um pequeno aspecto negativo de um fato tome proporções exageradas, levando a imaginação a todos os tipos de resultados desastrosos que podem advir deste episódio. Esse tipo de pensamento esteve muito presente nas notícias que acompanharam o processo de impeachment da então presidente Dilma Roussef.
Nessa época, jornais tentavam amedrontar a opinião pública com a possibilidade de fim da democracia ou da estabilidade do país. O mesmo acontece agora com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Para quem procura se manter atualizado somente através da imprensa americana, Donald Trump é um racista, comparável a Adolf Hitler, cuja eleição ameaça destruir a democracia americana, arrasar a economia e, eventualmente, provocar a III Guerra Mundial. Sem citar qualquer evidência para essas afirmações, a mídia joga com a mente do leitor livremente, sem responsabilizar-se pelas consequências. Obviamente, à luz da história e do tempo presente, podemos perceber que tais fatos não se concretizaram.
Nesse rumo, considero que o papel das mídias atuais tem sido desempenhado de forma cada vez mais abusiva e agressiva, contribuindo muito para o clima de desânimo geral que em nada contribui para a superação das atuais crises.
Em outra postagem falei sobre A Era das Reações Midiáticas e sobre as mudanças de comportamento proporcionadas pelo nosso contato com os meios de comunicação, que mais do que cumprir com o papel de nos manter informados e atualizados, impõem uma cultura e um estilo. Transplantada para a nossa vida pessoal, essa cultura resulta na desnaturalização e despersonalização do comportamento individual.
Um outro aspecto disso é a mídia utilizada como critério de aceitação para as nossas transformações sociais. Política, economia, cultura: todo fato novo precisa passar pelo crivo do jornal A ou B para, a partir de então, contar com nossa aceitação ou repúdio. A mídia agora é vista como arauto indispensável, norteador das nossas opiniões, sem o qual nos vemos perdidos e desnorteados num mundo em constante transformações.
Subestimou-se, no entanto, o seu potencial para a manipulação da verdade. Apesar da maioria dos movimentos de esquerda denunciarem constantemente os diferentes grupos de interesse envolvidos por trás desta ou daquela emissora, os críticos falham em construir uma análise crítica sólida, segundo a qual o comportamento da mídia possa ser avaliado antes de suas informações serem absorvidas. Por esse motivo, considero que o atual estado de coisas é caótico.
Mais do que preocupar-se com manipular histórias e reportagens para beneficiar grupos empresariais e políticos, o que parece ter sido a tendência da mídia até aqui, seja a brasileira ou americana, é alimentar-se de um sentimento de desesperança que parece favorecer suas vendas e sua audiência. Para o cidadão que hoje procura se manter informado, não há como fugir de um sentimento de esquizofrenia, impulsionado pelo tom histérico e alarmista dos meios de comunicação. Com seus altos brados, arranjos poéticos, suas meditações e inspirações, os jornalistas gritam um irrecusável "Leiam-me! Leiam-me! Leiam-me!", irresistível pela veracidade dos fatos, pela popularidade dos seus autores, pelo número de seguidores em suas páginas do youtube e pela cidadania do ato de informar-se. "Quê? Como você não vai me ler? Como pode renunciar à cidadania inalienável contida no ato de informar-se?"
Joyce Hasselman e Reinaldo Azevedo: expoentes do jornalismo histérico e estridente
No presente momento, eu não depositaria nos meios de comunicação a fé que muitos andam depositando. A opinião comum certamente sabe questionar a integridade da Globo, da Veja e outros (quando bem lhe apraz), mas não pelos motivos corretos. Seduz-se facilmente pelos apelos e afagos de ego que o fazem crer muito mais inteligente e capaz do que realmente é, para discernir entre aquilo que é fato jornalístico e o seu interesse próprio.
É difícil ficar indiferente a tudo o que tem se postado ultimamente sobre cultura do estupro, principalmente quando o termo deixa de ser veiculado somente por leigos e passa a ser utilizado por intelectuais da estatura de Leandro Karnal. Acho perigosíssimo, na verdade. Esse termo foi cunhado em 1970 por um movimento americano feminista considerado radical, que almejava uma ampla revolução na sociedade que, se levada a termo, não resultaria numa liberação feminina, mas numa sociedade autoritária e retrógrada. Mas cá estamos nós, padronizando na nossa sociedade de 2016 esse termo radical e, com isso, habituando-nos, sem perceber, a uma forma radicalizada de refletir e de pensar.
Ocorre aqui o mesmo erro de julgamento apressado que vemos no dia-a-dia em todo lugar: um pouco de generalização, um demasiado catastrofismo, pensamentos de extremos motivados por sentimentos de uma justa indignação, mas que se baseia somente numa visão estreita e distorcida da realidade é nas emoções do momento.
Então vivemos numa cultura do estupro? Será mesmo? Somos todos educados informalmente para estuprar? As próprias mulheres não estariam então imunes a uma tal cultura, suponho. Essa tese resiste a uma análise superficial? Vejamos...
Nessa suposta cultura do estupro, são também considerados estupro as piadas machistas, o assédio sexual, a diferente formação moral que vigora entre os sexos, as formas de trabalho, de infância e um sem-fim de miudezas culturais, que subitamente descobrimos representar uma violência abominável. Humrum... Então, seguindo essa mesma linha de raciocínio, que tal se de hoje em diante considerássemos agressão física como tentativa de homicídio. Ou tomássemos os protestos de rua como terrorismo. E as ameaças, pela sua concretização...
Também temos um número alto de atropelamentos na nossa sociedade. Será então que vivemos numa "cultura do atropelamento"? E quanto ao alto número de homicídios? Parece que vivemos numa "cultura do homicídio" também. E o tráfico de drogas, ah, esse com certeza, vivemos numa "cultura do tráfico" que naturaliza o consumo de drogas e culpa o usuário pelo seu vício... Será que esses comportamentos podem ser mesmo isolados uns dos outros em culturas compartimentadas que não se comunicam e não têm absolutamente nada em comum?
O que existe mesmo é um processo educacional fraco, e um fraco avanço civilizatório em determinadas regiões que impede que os valores mais básicos de convivência social se aprofundem, e com isso gere pessoas que dirigem mal, que são desonestas, que agridem umas às outras, e roubam, que estupram, etc.
Mas tem um problema nessa explicação: ela te deixa frustrado (você, adepto da tese da cultura do estupro). Ela tira de você o saco de pancadas em quem você queria bater. O que você sente na verdade é uma necessidade de agredir alguém, pra compensar a frustração que você sofreu: o seu emprego que não deu certo, o seu político que perdeu, aquela vida que lhe bateu. Você precisa explicar o mundo agora de um jeito que te libere pra extravasar. Você precisa de um inimigo pra gastar suas energias. Algum do tipo hediondo e imperdoável. Algum que não te cause remorso insultar, espancar, mutilar seus geniais, aprovar a pena de morte contra ele é ainda dormir com a consciência tranquila da justiça que se cumpriu e de todas as vítimas inocentes a quem você protegeu.
Parece que no final temos todos a nossa forma individual de interpretação de mundo (e de justificar nossos atos nele), seja com convicção, ignorância ou uma sociologia ruim, mas no final você (ou até mesmo a Pitty) precisará de uma que não difame os maridos responsáveis, os pais que acompanham suas filhas todos os dias à escola, os irmãos que acompanham suas irmãs às festas, não para denegri-las, mas para demonstrar o seu afeto. Pra cuidar.
Vivemos numa época de reações midiáticas. As palavras, o vocabulário, as nossas expressões naturais são substituídas pela terminologia jornalística. Não falamos mais na esperança de sensibilizar o outro. Esperneamos para chamar sua atenção. Não se trata da queixa comum da corrida por likes no facebook, mas sim da falsa escandalização e polemização sobre certos temas sensíveis, que parece ter o poder de transformar alguns indivíduos em cruzados estapafúrdios das causas perdidas. Em nome de suas causas, nenhuma possibilidade de senso de humor é aceitável. A seriedade de sua luta heróica o impede de qualquer possibilidade de alívio cômico, de relativização, de suavização e também, vejam só, do próprio realismo.Fabricam para si uma espécie de indignação que amplifica os aspectos negativos do seu infortúnio muito além do que realmente lhes sucedeu. Uma espécie de sentimento construído especificamente para aquele momento, que depende de um espectador e de um palco, além de, claro, da possibilidade de obter uma ampla reverberação. Discutem com o outro, sim, mas na esperança de convencer mais a si mesmos, porque precisam dessa crença para poderem... continuar discutindo! E em resposta a isso nós, os saudáveis, erguemos também com as armas deles a nossa defesa. Tornamo-nos assim cada um como uma pequena imprensa particular, selecionando notícias, resumindo os textos que não podemos digitalizar, realizando pequenas edições, nem sempre honestas, nos artigos que enviamos, na esperança de construirmos o nosso próprio sentido do mundo. Nos sentimos seguros, pois nos mantemos informados. Nos sentimos modernos, pois estamos conectados. Nos sentimos ativos, pois estamos lutando por aquele pedacinho da verdade, no qual acreditamos. Ficamos, por assim dizer, idiotamente felizes. Mas aí também reside uma perda, individual, só nossa, quando insistimos na versão midiatizada de nossas emoções, e nos recusamos a abrir mão de nossa indignação artificial para passarmos a defendê-la de toda a tentativa externa e interna de suavização, de relaxamento, da possibilidade de baixar a guarda por um minuto e de se permitir uma visão de mundo, quem sabe, um pouco menos dividida em extremos e mais rica de possibilidades. E essa é a nossa maior perda no processo: em troca do ganho obtido com o crescimento do número de indivíduos dispostos a assumir valentemente os seus postos como combatentes da verdade em suas centrais de imprensa particulares, obtemos por sua vez a diminuição daqueles que poderiam nos tornar abertos às visões de mundo plurais.
Em uma das mais belas e emblemáticas canções do Queen, Bohemian Rhapsody, uma frase, logo de início, sempre me chamou a atenção em particular. O coral inicia perguntando pela diferença entre a vida real e a fantasia, e então segue com uma breve, porém das mais trágicas passagens que se poderia esperar encontrar numa letra de música:
Caught in a landslide, no escape from reality
"Pego num desmoronamento, sem escapatória da realidade".
Esse trecho me deixou "fisgado" por anos, sem saber se eu havia interpretado corretamente o seu significado. Mas hoje, acredito que a minha compreensão imediata sobre ele na época seja mesmo a que me satisfaz.
Imaginemos primeiro do que se trata um desmoronamento, tomando ao invés da metáfora aquilo que está presente no seu sentido mais literal: o fato inesperado de um terrível acontecimento; uma massa argilosa desaba subitamente sobre o indivíduo. Invade o seu ambiente e o seu cotidiano, anteriormente tido como seguro. Não deixa mesmo nenhum espaço para esboçar reação, um reflexo, qualquer possibilidade defesa ou sequer de perceber o que está se passando. Simplesmente irrompe. Brota ali, do nada, entre a pessoa e o seu mundo, que de repente se vê sendo engolfado, tragado para o fundo de um breu avassalador; o sujeito é cercado, engolido, esmagado. E no final de tudo, o silêncio. E um ignoto sufocamento.
Independentemente do episódio de vida real que possa ter inspirado a elaboração dessa passagem, certamente é possível imaginar nas nossas vidas diferentes eventos que assumem os contornos dessa poderosa metáfora do Queen. A demissão de um emprego, o término de um relacionamento, a perda de um ente querido, o próprio nascimento, talvez. Acontecimentos distintos que parecem ter o efeito de um deslizamento, de um soterramento, algo que nos atinge e nos deixa completamente atordoados. Como diz o personagem de Vince Vaughn, na série True Detective, ao garoto que acabara de perder o pai: "Às vezes algo acontece que divide a sua vida. Há um antes, e um depois. Tenho umas cinco dessas a essa altura. E essa é a sua primeira. Mas se usá-la direito... essa coisa ruim, ela te tornará melhor. Mais forte. Você terá algo que as outras pessoas não têm."
O período após um "desmoronamento" nos deixa com apenas uma coisa a ser feita: uma necessidade de reorganizarmos as nossas vidas daquele ponto em diante; uma opção que não fomos livres para tomar. Simplesmente recomeçar do zero. O que havia antes, já não existe mais. O que há adiante não se parecerá em nada com o que é agora. A dolorosa despedida de um modo de ser e de permanecer que acabou de encontrar um ponto de ruptura e demanda de nós, emergencialmente, todas as nossas forças individuais para o cumprimento de uma imediata reconstrução
Procura-se ainda se apegar ao que já foi. Quer-se atender aos mesmos padrões da vida anterior, usufruir do mesmo nível de felicidade, da mesma rotina despreocupada e desembaraçada... Mas não se consegue. Dali por diante, o passado poderá ser tão bom quanto um peso por cima dos ombros, e só o passar do tempo permitirá que se transforme numa saudosa redordação.
Mas o mais fascinante para mim sempre foi ver como as pessoas fazem para superar e sobreviver a um desses episódios quando nele são surpreendidos. Para encarar a imponente tarefa de reconstruir sua vida, dando início a uma nova etapa que se esforça para se assemelhar a outra já conhecida. Eis o que eu mais admiro: como se consegue ter a paciência meticolosa de um restaurador de relíquias antigas para colar os cacos do que foi desmanchado em pedaços; a capacidade de apegar-se ainda à dignidade, como um resquício incólume da vida anterior, que ainda persiste e brilha; o ato de manter a cabeça erguida quando de cada nova derrota e desacerto na busca do reequilíbrio; a necessidade de travar novas batalhas e respirar ares mais baixos, lutas para as quais não se está preparado nem se conhece as regras, armas, rotas de fuga, e continuar, mesmo assim, seguindo adiante.
Me parece ser esse mesmo o segredo: preservar o esforço de tentar viver bem e aceitar o destino não como um fatalismo pesaroso, mas como um espaço de escolha moral que diz "sobre esse escombro empregarei meu talento". Não se trata de conformismo indiferente, mas de não deixar que o abalo impeça a determinação de se manter fiel a si mesmo, sobrevivendo à descoberta de que uma parte das nossas vidas subitamente fugiu ao nosso controle. Não se entregar à calamidade nem passar a se contentar com viver uma vida insípida, ambicionando com isso não provar também dos seus dissabores. E, ignorando o dano, passando a manter o foco somente naquilo que depende exclusivamente de si. Numa palavra: estoicismo.
Apesar de muito se discutir sobre
corrupção esses dias, uma coisa para a qual não me parece ser dada a devida atenção
é o quanto ela é resultado da cultura extremamente hedonista e materialista que
temos. E isso seria válido não só para o aumento da corrupção, mas também dos
crimes mais violentos que assolam o país e que mais recentemente têm aumentado
em nossa cidade.
Isso porque os desvios de verba milionários das licitações, tanto quanto os assaltos dos bandidos comuns, parecem ter como principal propósito
o financiamento de certos prazeres banais: baladas à la “rei do
camarote”, caríssimas drogas ilícitas (menos caras do que as lícitas, no
entanto), orgias sultanescas e objetos de consumo quaisquer, ícones de status social... Talvez possamos ter
subestimado em que medida as pessoas possam abrir mão das boas regras de
convivência humana, da paz e civilidade, do art. 37 da CF no caso de alguns,
meramente em nome disso: a necessária flexão de valores morais no usufruto de uma
experiência hedonista para a qual o seu mero salário jamais poderia dar conta...
Não de bom grado se reconhece
como alimentamos isso. Não só pelas festas periódicas do Carnaval, pela Semana
Santa, pelo São João, e o Carnaval Antecipado e as inúmeras X-Folias no espaço entre elas (por excesso de espaço, pudemos
importar o Halloween, espero que ainda chegue a vez da camisa havaiana) seguindo
até o Natal e recomeçando o ciclo, mas as nossas escolas estão repletas
dela, e nos cursinhos ainda podemos encontrá-la. Ela está na promessa de um futuro bem-sucedido que, ao final do esforço acadêmico, estará materializado numa casa com
piscina, num carro tunado, nos iPods e nas drogas lícitas das farras ainda “inocentes”
dos estudantes, enfim, nos mesmos objetos de desejo que atualmente têm motivado
os escândalos de corrupção de que ora tanto nos queixamos.
Não que esses objetos em si sejam
a causa do problema, mas sim a nossa educação, entendida não como a educação deste
ou aquele sistema escolar, mas muito acima disso, como a nossa formação (na escola e
fora dela), que parece ter se tornado muito eficaz em definir os fins que
devemos perseguir, mas muito menos rigorosa em nos esclarecer quanto aos meios
e os limites para tanto.
E sem pudor poderíamos dizer que nas nossas escolas e universidades, a dedicação dos alunos está comprometida com esse mesmo
ideal de consumo, o qual mesmo com o mais zeloso esforço de sua carreira profissional pode vir a não se concretizar. A percepção dessa possibilidade (e a sua não aceitação) torna-se logo a justificativa ideológica para o desenvolvimento de um novo tipo de potencial: o de ter que se dar bem a qualquer custo.
Por mais que pudéssemos crer ainda que
a corrupção tem uma causa no desvio de personalidade deste ou daquele sujeito em particular, a verdade é
que desde cedo nós a estamos industrializando. A corrupção pode significar
perda financeira coletiva, deteriorar o convívio social e comprometer a vida de
gerações atuais e futuras... mas é também um atalho para os ícones de sucesso arduamente
perseguidos numa cultura hedonista cultivada por anos em bancos de escolas, de
universidades, em redes de relacionamento de falsas amizades meticulosamente
preparadas que, ao final, devem a todo custo produzir o seu tão aguardado
resultado: o acesso a objetos de consumo, em relações também consumistas,
transmutados depois em uma espécie de "medalhas", e catalisadores de um duradouro, ainda que falso, sentimento de autorrealização.